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Em 2014 e em 2018 comparamos as propostas dos candidatos à Presidência com a Doutrina Social da Igreja (DSI), somando notas por tema num índice final. Desta vez mudamos o método, não o propósito. Uma nota única esconde diferenças que importam: pode fazer parecer que uma posição grave é "compensada" por várias posições favoráveis em outras áreas, como se todos os temas tivessem o mesmo peso moral. Por isso, esta análise vai item a item — vida, propriedade, trabalho, autoridade, economia — e indica com clareza onde cada candidato está mais ou menos alinhado à DSI em cada tema, sem somar nada disso numa nota final nem apontar um "candidato católico".
Um ponto de partida ajuda a ler o que vem a seguir: nenhum candidato relevante é contra amparar os pobres, e quase todos afirmam alguma proteção à vida. A diferença real não está nos fins declarados — está nos meios propostos, e é aí que a DSI tem mais a dizer.
Quem assina esta análise é um leigo católico com formação teológica e filosófica — não um clérigo, nem qualquer instância da hierarquia da Igreja. Como ensina o Concílio Vaticano II, cabe ao leigo, não ao padre ou ao bispo, o discernimento e a ação concreta no campo político. A análise completa — histórico verificado de cada candidato, fontes de cada afirmação, e a aplicação de oito critérios da doutrina social a cada plano de governo — está no documento completo. Vários compromissos importantes desta eleição (anistia, continuidade de programas sociais, parte da reforma do Judiciário) vieram de entrevistas e sabatinas, não dos planos protocolados no TSE — por isso, recomendamos acompanhar os debates até outubro, além de ler os planos e este resumo.
1. Metodologia e Estrutura de Análise
Quatro Princípios Permanentes da DSI: As análises fundamentam-se na Dignidade da Pessoa Humana, no Bem Comum, na Subsidiariedade e na Solidariedade
. Oito Blocos Temáticos: A avaliação organiza-se nos seguintes eixos: (1) Pessoa humana e dignidade; (2) Sociedade e bem comum (incluindo propriedade); (3) Solidariedade; (4) Subsidiariedade; (5) Autoridade e participação na vida pública; (6) Família, matrimônio e educação; (7) Trabalho, economia e ecologia; e (8) Estado, comunidade política e paz
. Rigor na Classificação das Evidências: Fatos sobre o histórico dos candidatos são estritamente categorizados como Fato Verificado, Investigação/Processo em Curso ou Alegação de Crítico/Opositor
. Classificação dos Blocos: Cada pauta recebe uma classificação entre Compatível, Problemático, Controverso, Insuficientemente Especificado, Neutro ou Incompatível
. Finalidade e Isenção: O documento não indica voto, não aponta um "candidato católico" e visa exclusivamente servir como ferramenta pedagógica para a formação de consciência e o discernimento individual do eleitor
.
Como ler as tabelas abaixo
- Compatível — em linha com o princípio, às vezes com ressalva.
- Problemático — há fato ou escolha concreta em tensão com o princípio.
- Controverso — tensão real, sem resposta pronta da DSI; católicos de boa-fé discordam.
- Insuficiente — falta informação verificável nas fontes consultadas; não presumimos posição a partir do perfil do candidato.
- Neutro — posição política legítima em disputa, que este documento não avalia como violação ou conformidade a princípio nenhum. É o caso, em todos os candidatos, da divergência sobre a anistia de 8 de janeiro e sobre a atuação do STF nesse caso específico.
Os seis candidatos com plano de governo mais detalhado
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem o eixo social mais explícito do grupo, mas o discurso pessoal contrário ao aborto convive com atos administrativos que ampliam o acesso ao procedimento — e com uma declaração de 2022 ("aborto deveria ser direito de todos") revista dois dias depois sob pressão. Indicou dois ministros ao STF, um deles seu ex-advogado, somando-se a Toffoli em mandatos anteriores; reportagens recentes ligam esses indicados à proteção de outro ministro numa investigação. Defende publicamente mandato fixo para a Corte — ponto avaliado como positivo, embora o histórico do candidato seja de indicação por proximidade. Mantém proximidade política com o MST, movimento que usa invasão de propriedade como tática. Em setembro de 2026, às vésperas do primeiro turno, seu governo reverteu ou anunciou medidas (bets, taxa das blusinhas, reajuste do Bolsa Família) que ele mesmo havia criado ou represado — o que pede mais cautela do que crédito.
Flávio Bolsonaro (PL) afirma a vida desde a concepção e propõe reforma robusta do Judiciário (mandato fixo, quarentena, fim de decisões monocráticas). Responde a investigação por peculato (a "rachadinha") e a outra sobre financiamento ligado a um banco sob investigação. Defende anistia para os condenados de 8 de janeiro — posição tratada como disputa política legítima —, mas o beneficiário direto seria o próprio pai, conflito de interesse à parte de qualquer opinião sobre o mérito do caso. Tem a proposta mais detalhada do grupo para enfrentar a dimensão econômica do crime organizado (asfixia financeira, retomada de territórios). Como legislador, esteve ligado a projetos que facilitam a regularização de terras públicas ocupadas irregularmente.
Ronaldo Caiado (PSD) propõe a reforma mais detalhada do STF em limites de mandato e quarentena. Apoiou a derrubada de uma resolução que facilitava o aborto legal para crianças vítimas de violência sexual — compatível com a DSI, que não reconhece exceção alguma ao aborto —, e sua lei estadual sobre o tema inclui apoio psicológico à gestante, não só obstáculo. Seu governo em Goiás pagou R$ 209 milhões a empresas ligadas ao PCC, dado que pesa contra a promessa de "tolerância zero" com a corrupção feita em 2019.
Romeu Zema (Novo) teve a dívida de Minas Gerais quase dobrar em seu governo — mas a apuração mostra que isso veio de juros sobre uma dívida de 30 anos, sem novo empréstimo contraído, o que muda a leitura de quem cita o dado como fracasso de gestão. Defende privatizar 100% das estatais federais, sem exceção, regulamentar o ensino domiciliar (a favor da autoridade educativa dos pais) e mudar a indicação ao STF por lista tríplice, tirando do presidente a escolha unilateral.
Renan Santos (Missão) é o único dos seis a rejeitar publicamente a anistia, defendendo revisão da pena por proporcionalidade. Também defendeu que decisões judiciais consideradas ilegais não deveriam ser cumpridas — ponto que pede ponderação, já que desobedecer ordem iníqua tem base moral católica, mas o risco à ordem pública quando um poder desobedece a outro é real. Propõe fundir 70% dos municípios do país e retirar da Constituição os pisos mínimos de saúde e educação.
Augusto Cury (Avante) propõe a reforma mais estrutural do Judiciário do grupo — tirar do presidente o poder de indicar ministros, deixando a escolha às próprias classes jurídicas. Mas afirma publicamente ter doutorado por instituição sem reconhecimento acadêmico, e a maior parte de seu plano de 200 páginas não detalha posição sobre os demais temas centrais desta análise.
As outras seis candidaturas registradas têm intenção de voto marginal e pouca estrutura de governo; o documento completo trata delas resumidamente.
Síntese comparativa
Como ler. A tabela reúne, para os seis
candidatos principais, a classificação de cada um dos oito blocos, tal como
justificada nas fichas da Parte 2. Ela não soma nem ordena: não há nota final,
e a contagem de células de uma mesma cor não é um placar.
Duas
cautelas:
- Insuficientemente
especificado não
equivale a compatibilidade — indica que faltam informações verificáveis,
que o leitor deve buscar nos planos, nos debates e nas sabatinas;
- A
divergência sobre a anistia de 8 de janeiro é tratada como neutra em todos
os candidatos, e o bloco de Autoridade (AP) considera apenas
propostas de reforma do Judiciário, transparência, concentração de poder e
conflito de interesse.
Legenda de Classificações
● COMP — Compatível
● INSUF — Insuficientemente especificado
● CONTv —
Controverso
● PROB — Problemático
Legenda dos Blocos
- PH: 1.
Pessoa humana
- BC: 2.
Bem comum
- SOL: 3.
Solidariedade
- SUB: 4.
Subsidiariedade
- AP: 5.
Autoridade e participação
- FAM: 6.
Família
- TEE: 7.
Trabalho, economia e ecologia
- EP: 8.
Estado e paz
Tabela-Síntese
|
Bloco |
Lula |
Flávio |
Caiado |
Zema |
Renan |
Cury |
|
1.
PH |
● |
● |
● |
● |
● |
● |
|
2.
BC |
● |
● |
● |
● |
● |
● |
|
3.
SOL |
● |
● |
● |
● |
● |
● |
|
4.
SUB |
● |
● |
● |
● |
● |
● |
|
5.
AP |
●¹ |
●/ ●² |
● |
● |
●³ |
● |
|
6.
FAM |
● |
● |
● |
● |
● |
● |
|
7.
TEE |
● |
● |
● |
● |
● |
● |
|
8.
EP |
● |
● |
● |
● |
● |
● |
¹ Lula: mandato fixo para
ministros do STF e restrição à advocacia de parentes, compatíveis; padrão de
indicações ao STF, problemático.
² Flávio: propostas de reforma do
STF, compatíveis; conflito de interesse específico na proposta de anistia (o
beneficiário direto seria o próprio pai), controverso.
³ Renan: mandato fixo e limite às decisões monocráticas, compatíveis; declaração sobre descumprir decisões judiciais consideradas ilegais, a ponderar.Tabela 2 — A convergência rara: reforma do STF
Os seis defendem, de formas diferentes, mandato fixo para ministros do Supremo. Divergem em quem passa a indicar.
| Candidato | Mandato proposto | Quem indica |
|---|---|---|
| Lula (discurso, PEC de deputado do PT) | 10 anos | Mantém o presidente |
| Flávio | 10 anos (PEC já assinada) | Presidente, com quarentena de 1 ano para ex-ministros de Estado |
| Caiado | 12 anos | Presidente, com idade mínima de 60 e quarentena de até 8 anos |
| Zema | Defendeu até 15 anos (fora do plano formal) | Lista tríplice (OAB, STJ, MPF) |
| Renan Santos | 8 anos | Presidente, com restrição a parentes |
| Cury | 8 anos | As próprias classes jurídicas — tira o presidente da escolha |
Economia e integridade: o que verificamos
| Tema | O que a apuração mostrou |
|---|---|
| Dívida de Minas Gerais (Zema) | Cresceu por juros sobre passivo de 30 anos, sem novo empréstimo — não é a mesma coisa que "gastar mais do que arrecada" |
| Bolsa Família (Lula) | Reajuste de 15% anunciado 17 dias antes do 1º turno, pago só depois do 1º turno |
| Bets (Lula) | Regulamentadas por lei sancionada pelo próprio governo em 2023; proibidas por MP 9 dias antes do 1º turno de 2026 |
| Reforma tributária | Lula defende o que seu governo aprovou; Caiado trabalhou contra a aprovação; Flávio mudou de posição três vezes em três meses |
| Selic e juros | Renan promete Selic a 5% (fora da competência do cargo); Flávio trata a queda de juros como consequência do ajuste fiscal, não como promessa direta |
| Contratos públicos (Caiado) | R$ 209 milhões pagos a empresas ligadas a investigação pelo PCC, em tensão com a promessa de "tolerância zero" à corrupção |
Quanto o partido garante o programa
|
Partido |
Perfil |
O que isso indica para o leitor |
|
PT |
Disciplina ideológica alta;
alas internas pressionam a execução em costumes |
Alta previsibilidade de que o
partido imponha suas diretrizes |
|
PL |
Veículo político da família
Bolsonaro |
Continuidade com o programa do
governo Bolsonaro |
|
PSD |
Centrão, fisiológico, com
trânsito entre governo e oposição |
Pouca garantia de que o partido
sustente qualquer posição específica |
|
Novo |
Princípios liberais fixos e
disciplina ideológica real |
Coerência programática, sem
garantia de resultado |
|
Missão |
Veículo pessoal, registrado
recentemente |
Sem histórico independente do
candidato |
|
Avante |
Legenda de conveniência,
historicamente no Centrão |
Sem disciplina programática a
esperar |
Uma última palavra
Esta análise não substitui o discernimento de cada eleitor. A Doutrina Social oferece princípios firmes em alguns pontos — a dignidade da vida desde a concepção está entre eles — e, na maior parte dos temas de governo, oferece critérios para julgar, não uma resposta pronta. Formar a consciência é tarefa do próprio leigo. Convidamos a ler o documento completo, conferir os planos de governo no site do TSE e acompanhar os debates até a véspera do voto.
[Leia o documento robusto completo, com o histórico verificado de cada candidato e as fontes de cada afirmação → link]


